SANCHO. Deste nome, o primeiro.

18/02/2025

Muito se comenta sobre o primeiro rei de Portugal, o bravo D. Afonso I, que converteu o seu condado em um reino, e aumentou suas terras com a reconquista, às custas dos Mouros. Nesse texto, abordaremos o segundo rei de Portugal, Don Sancho, filho de Don Afonso.

Afonso I e Mafalda da Sabóia tiveram sete filhos, sendo o mais velho um rapaz chamado Henrique. Os próximos três filhos eram mulheres, e no dia da festa de São Martinho, em 11 de novembro de 1154, o casal real teve em Coimbra um filho homem que recebeu justamente o nome do santo do dia, como dissemos, Martinho. Ocorreu que Henrique, o primogênito, morreu aos 8 anos e Martinho tornou-se o primeiro na linha de sucessão ao trono. Por isso, ele recebeu um nome que consideravam mais digno de um rei hispânico... Sancho!

A posição de Sancho nos rumos do reino começou de fato quando o rei Afonso fraturou o fêmur no cerco de Badajoz, ficando fisicamente incapacitado e precisando do filho como braço direito militar. Por isso, em 1170, Sancho foi armado cavaleiro pelo rei Afonso e passou a atuar na regência. Quatro anos depois, Sancho se casaria com Dulce, da casa real aragonesa. Tendo como vizinhos os belicosos reinos cristãos de Leão e Castela, nada mais prudente do que se aliar à casa de Aragão, também da mesma península e inimiga de Castela.

Portugal nessa época era um reino novo, sem reconhecimento de independência por parte do Papa e com um rei doente. Portugal precisava mostrar seus músculos não só aos outros reinos cristãos ibéricos, mas também aos sarracenos, que podiam enxergar tudo como um momento de fraqueza portuguesa e encorajarem-se a uma invasão. Além disso, o legado de seu pai era levar guerra ao infiel, o mouro. Por isso, em 1178 Sancho organizou uma bem sucedida expedição militar às redondezas de Sevilha, então sob autoridade do Califado de Marrocos. Sua vitória nessa empreitada o fez retornar com muito despojo e reconhecimento.

Esse grande feito foi contrabalanceado com uma derrota cerca de um ano depois. Como seu pai, o rei Afonso, estava em uma relação tensa com ex-genro, o rei de Leão, a situação acabou se degenerando para as vias de fato. Afonso havia recebido como dote de casamento de sua filha com o rei leonês, as terras de Castrotorafe. Mas o casamento foi depois anulado pelo Papa, e nem Portugal queria devolver as terras à Leão, nem Leão achava justo que as terras ficassem com Portugal. E quem foi resolver a situação à frente do exército? Não o corajoso, mas incapacitado Afonso, e sim, seu filho Sancho. Mas as forças de Sancho levaram uma surra do rei de Leão na Batalha de Arganal, nas proximidades da Cidade Rodrigo. Essa derrota tirou um pouco o brilho do príncipe, vitorioso em Sevilha.

Por esse tempo, o príncipe veria o papado reconhecer a independência do reino de Portugal, feito pelo papa Alexandre III na bula Manifestis Probatum. Mas a vontade portuguesa seria testada em breve. Em 1184, o Califa Almóada do Marrocos, chamado pelos portugueses de Miramolim, decidiu que essas escaramuças cristãs aos seus aliados e subordinados ibéricos precisava de uma resposta. O Califa parecia determinado a lançar uma reconquista muçulmana, e parecia que Portugal deveria ser a primeira vítima, já que tivera o desrespeito de atacar Sevilha.

Unindo em Sevilha suas forças africanas com as ibéricas, o califa tomou Cáceres sem muita luta, que na época estava sob Leão, e dirigiu-se para o oeste, em direção a Portugal. A ideia era tomar Santarém e Lisboa, para depois dirigir-se ao norte.

O defensor de Santarém era o próprio príncipe Sancho, que com muita bravura fez desesperadamente o que pôde diante das grandes forças invasoras. Mas em certo momento houve uma retirada dos almóadas, que permitiu uma perseguição e vitória aos portugueses. O motivo dessa retirada permanece obscuro de certa forma. A história portuguesa chegou a creditar a retirada à chegada de forças trazidas pelo rei Afonso. Outras fontes dizem que o rei de Leão também estava chegando para oferecer combate aos almóadas. Outra explicação afirma que os mouros decidiram dividir as forças e cercar Lisboa e Santarém ao mesmo tempo. Quando alguns viram que outros deixavam o cerco a Santarém, entenderam que estavam sob ataque de reforços e precisavam deixar suas posições. Seja qual fora a explicação correta, Sancho saiu dessa situação difícil como corajoso comandante de homens.

Em 1185 Sancho foi coroado finalmente rei de Portugal, já que seu idoso pai morrera. Dois anos depois, passaram por Lisboa os cruzados nórdicos que iam para a Palestina. Sancho os convence do mérito da guerra santa na península ibérica e os leva para cercar Alvor e Silves. Em Alvor, os cruzados chacinaram os habitantes, mas em Silves o rei Sancho os impediu de fazer o mesmo. Após essa conquista, o rei passou a intitular-se "Pela graça de Deus, rei de Portugal e Silves".

Mas Silves trocaria novamente de mãos em 1191. O Miramolim voltou suas forças para Portugal. De Sevilha, uma grande força moura reconquistou praticamente todo o Alentejo, ou seja, as terras ao sul do Tejo, incluindo Setúbal, que ficava perto de Lisboa. Chegaram a destruir o castelo de torres Novas, que fica ao norte do rio Tejo. Silves voltou a escorregar das mãos portuguesas para as mouras.

Antes disso, no entanto, Sancho I havia sido convidado para integrar a Terceira Cruzada à Palestina, mas ele não acabou não indo devido aos constantes perigos na própria península, vindos de mouros e até de cristãos. No entanto, a mesma indulgência que Sancho receberia se fosse à Jerusalém, o papa Celestino III o concedeu se o rei português lutasse contra o rei de Leão. O Motivo é que o rei Afonso IX de Leão havia se aliado ao mouro infiel, e fora excomungado. Com isso, os outros reis cristãos se sentiram motivados a atacar o reino de Leão, e Sancho I colocou em prática o velho sonho português de dominar a Galícia, invadindo o sudoeste dela.

A guerra entre os dois reinos levou Leão a atacar Beira Alta e Trás-os-Montes, ou seja, o nordeste, enquanto Portugal cercava a Cidade Rodrigo, importante praça do reino de Leão. Na Batalha de Ervas Tenras morrem numerosos membros das mais nobres famílias portuguesas.

Em cerca do ano de 1200, Sancho I retomou o castelo de Sesimbra e região adjacente, que havia sido perdido na invasão moura 10 anos antes. Nessa empreitada ele teve ajuda dos Francos, como eram genericamente chamados os cruzados. Dois anos depois relata-se que o reino sofreu com uma grande fome e a peste assolou os portugueses.

Em 1208, o rei Sancho I entrou em atrito com o bispo do Porto, já que decidiu casar seu filho Don Afonso com Dona Urraca, filha do rei de Castela. Como ambos eram parentes, o bispo do Porto se opôs, mas qual casa real não casava os seus com parentes naquela península de poucos reinos cristãos? Por isso, talvez a causa do desagrado não fosse exatamente a consanguinidade, mas sim, a escolha de uma princesa de Castela e não de Leão. O rei chegou a aprisionar o bispo, o que lhe rendeu uma pena de excomunhão. Mais tarde, o Sancho se reconciliou com a igreja.

Por fim, em 1211, o doente Sancho indo de Coimbra até Santarém, parece ter buscado ajuda de médicos árabes que tinham ficado em Alcobaça. Os muçulmanos sem dúvida tinham maior conhecimento da medicina nessa época. Mas nada pôde ajudar o rei, que morreu em Santarém. Acabava aqui o reinado de Sancho I, que herdou um reino que ia do norte como é hoje ao sul que passava um pouco do rio Tejo. A atual região sul de Portugal, além do rio Tejo, na época mudava constantemente de mãos mouras para portuguesas e vice-versa.

Sancho se ocupou em povoar regiões distantes do Reino, trazendo muitas vezes flamengos para essas terras, o que lhe fez ganhar a alcunha de "O Povoador". Por isso, você brasileiro que descende de portugueses, talvez sua ascendência chegue a Flandres e você nem sabe.

Sancho também foi conhecido como um rei culto, sendo amante do conhecimento e escritor, uma ideia que causa discordância na historiografia. 

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